Blog do Marlos

Picuinhas, política, literatura, resenhas, contos, sexo e futebol

Name: Marlos S. Marques
Location: São Paulo, São Paulo, Brazil

Friday, February 05, 2010

Um carro, um humano mal-posicionado, muitas formigas e um acidente.


Fevereiro de 2010

Olá companheiros,
Há algum tempo (após a promessa não cumprida de manter escritos atualizados) uma fratura em minha mão direita (culpa de meu específico posicionamento em relação a uma particular parede de minha casa no exato momento em que o time do Ceará viria a converter um também específico gol que de modo algum me agradou, para dizer o mínimo), minou por completo tal projeto. Nem ainda finalizada minha recuperação, um novo acidente comprometeu irremediavelmente a continuação do compromisso.
Pois bem, sendo assim, ansiando por vossa compreensão, venho através deste informar-lhes de certo acontecimento peculiar que veio a preencher o meu período de férias. Embora vicejando de ocorridos, tal período acabara marcado por um em particular que viria a eclipsar os demais. Posto tal misteriosa introdução, poderia agora me delongar em conhecidas técnicas de manutenção tensional (se é que existe esta última palavra; mesmo que não, imagino que possa se deduzir tal adjetivação - ops! esta última palavra existe ?), mas em prol do desejo de saciedade em alta (pouco alto, diga-se de passagem, o que não ocorreria se realmente tivesse me utilizado das referidas técnicas), finalizo o páragrafo fornecendo a tão esperada informação, e aos menos desavisados é de bom grado informar que o farei de ríspida forma: acabei sendo atropelado pelo meu próprio carro.
Sim, a leitura que fizestes da última expressão, embora talvez confusa face a uma eventual não imediatidade de assimilação cerebral (o que, no mundo de hoje, torna-se um empecilho para o correto fluxo de idéias), está correta.
Na tentativa (infrutífera, diga-se de passagem) de tentar parar meu carro (desgovernado) em sua tresloucada descida por um barranco graminoso, acabei sendo, no sentido metafórico claro (não estamos em “Transformers”), engolido pelo mesmo, e impelido forçosamente (pelas leis da Física vigente neste canto do Universo – depois podemos discutir o que Hume acha disso) a me aninhar em sua parte inferior, convidado (novamente no sentido metafórico) a compartilhar de sua alegre movimentação desvairada pelos gramados de Santo Antônio do Pinhal. Durante tão especial passeio, talvez por um não entendimento meu em relação ao correto posicionamento de minha estrutura corpórea, acabei sendo admoestado pelo veículo condutor (sem condutor) em relação a tal distribuição espacial; este o fazendo com os meios disponíveis para sanar o eterno (e mais que conhecido) problema da troca de informações entre não-humanos e humanos: a saber, uma educadora manobra de sua roda traseira direita por sobre meu quadril e perna esquerda.
Bem, seja como for, não morri. Nem tive direito a uma recapitulação de minha vida (o que seria interessante porque, acreditem ou não, não me lembro de nada antes dos meus 14 anos), nem me converti a nenhum culto (observar que o vocábulo “religião” não foi empregado) e, segundo Helvy, “não aprendi nada e continuo o mesmo chato de sempre”.
Aos que apreciam um relato mais objetivo, julgo interessante acrescentar alguns fatos a mais, bem como a conclusão do mesmo (que os mais atentos puderam constatar ainda não existente).
Uma bem postada árvore impediu-nos (a mim e ao carro) de prolongarmos nosso passeadouro. Preso sob o bom (e pesado) amigo fui retirado após a correta aplicação de um macaco (mecânico) e largado a esmo sobre um formigueiro. Que infelizmente, para mim e para as formigas (julgo), achava-se habitado. O propagado e mais que alardeado trivial conhecimento focado em se garantir a imobilidade do acidentado (no caso, eu), permitiu aos vorazes insetos atacar um alvo imóvel. Fui então obrigado a conclamar meus camaradas (os mesmos que se utilizaram do macaco, lembram ?) à gloriosa tarefa de enxotamento dos pequenos animais, entretidos em desvendar melhores pontos de investida por entre a pelagem de minhas pernas. Tal manifestação de ações ocorreu até a chegada do resgate (Corpo de Bombeiros), cerca de quarenta minutos depois (a polícia já havia se manifestado um pouco antes em sua peculiar maneira de proceder, fruto de uma mistura de incapacidade intelectual, falta de conhecimentos médicos básicos e inaptidão no que diz respeito ao gerenciamento do pequeno poder aos quais se acham delegados), quando então me inquiriram em relação à capacidade de sensação e movimentação de meus membros inferiores, obtendo-se então de minha parte a resposta de que não apenas conseguia os movimentar e sentir, como ipso facto as investidas das formigas incomodavam-me deveras.
Fui então levado de ambulância ao PS de Campos de Jordão, onde jogaram-me numa fria mesa para a retirada de dois quilos de chapas de Raios-X (não quebrei nada milagrosamente, mas esta certeza só viria no dia seguinte com a sucessão dos exames) e depois ao Hospital (de freiras) São Paulo da mesma cidade para o repouso e realização emergencial de ultrassom (já que algum órgão interno poderia ter sido “danificado”). Nove horas depois após tal exame de emergência ter sido efetuado, pode-se então, a priori, considerar minha situação como não tão grave.
Claro, havia uma queimadura de segundo para terceiro grau exposta junto ao meu abdome esquerdo, bem como diversas inchações ao longo da coluna e bacia e uma eventual torção do joelho direito, mas, como dito, nada tão grave.
Fica para um próximo relato a sequência, narrativa de minhas desventuras visando a recuperação. Tudo isso aconteceu na madrugada de 22 para 23 de dezembro de 2009. Desde então um vingativo céu se rebelou contra o mundano, não dando trégua à cidade de São Paulo (creio eu, pelo menos, que aquelas formigas más foram destruídas).

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Saturday, August 22, 2009

Rapidinhas - Mercadante, gatos e um besouro


Agosto de 2009

Pensar que algum dia em minha vida cogitei votar em Mercadante. Aliás, não o fiz, menos pelo político em si, e mais (e muito) pela absoluta descrença na classe de legisladores que chafurda por estas bandas, me obrigando a votar sempre nulo (há os que consideram tal atitude uma isentiva covardia, como se a atitude de optar por um determinado martírio fosse louvável única e exclusivamente por se tratar de uma ação; louvando-se a atitude, não a escolha – particularmente, creio ainda que ao se escolher um flagelo, estamos de acordo com o carrasco). Entretanto, tal discussão é mais complexa e longa do que nesse momento me proponho.
Há algum tempo, na corte de FHC, maquiavelicamente Giannotti nos iludia com suas evasivas para a corrupção “sistêmica” que corria solta. Entrando o Sapo, a outrora inimiga, Chauí, se utilizou de subterfúgios similares para justificar o, digamos, “modo de ser” do Senado e adjacências (Chauí é um caso à parte, não se satisfez em se corromper moralmente, corrompeu-se ideologicamente também; às vezes me pergunto como alguém pode escrever um calhamaço sobre Spinoza e falar tantas besteiras ...). Agora Mercadante tergiversa de modo análogo com direito a faniquito.

Leio em uma nota na National Geographic Brasil que ao redor de Tóquio lojas batizadas de “cafés de gatos” foram abertas com o intuito de, além das ofertas óbvias associadas a um estabelecimento com esse nome, disponibilizar uma interação momentânea com felinos domésticos. Ou seja, enquanto o cliente toma um chá com torradas, tem também o direito de acariciar simpáticos gatos espalhados pelo local fechado. Duvido que inventem um dia o “hotel de gatos”; desde que puseram cinco gatos em minha casa não há um dia que esses filhas da puta não me acordem.

Interessante o site http://www.memoriacinebr.com.br/ , sob o comando da pesquisadora Leonor Souza Pinto, que vasculha os processos de censura guardados no Arquivo Nacional de Brasília, nos permitindo acesso aos brilhantes comentários realizados pelos burocratas de plantão às películas por eles analisadas.
Não sei aonde recrutaram essa gente, mas por exemplo, a censora Jacira Oliveira, em 1966, escreve sobre “Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver” de Zé do Caixão:
“Se não fugisse à minha alçada, seria o caso de pedir a prisão do produtor pelo assassinato à sétima arte, pois não foi outra coisa que ele realizou ao rodar o presente ‘filme’.”
Já o censor Dalmo Paixão, em 1986, sobre “O Beijo da Mulher Piranha” de J.A. Nunes:
“Trata-se de filme pornográfico em que seus realizadores se gabam de haver introduzido inovações no gênero: o emprego de peixes na excitação sexual e o uso de pênis artificial acionado por máquina de lavar roupas. (...) Opinamos pelo veto ao filme (...) por contrariar os bons costumes.”
Divirtam-se.

Quando Dante destacou a perda da esperança ao se adentrar o inferno, o fez com extremo acerto. No mundo político-manipulador que vivemos tem-se medo que as almas dominadas percebam que já atravessaram a porta; sabe-se lá o que fariam ... Agora vêm profetizando nova guinada na política brasileira, personificando-a na pessoa de uma militante da “boa causa”, pessoa esta que não faz mês me vem com um discurso insano sobre biopirataria, atribuindo riquezas incontáveis a escrutáveis segredos contidos em uma espécie de besouro que pela Amazônia rasteja. Não que possuir conhecimentos básicos que sejam sobre a área na qual atua seja pré-requisito para ministro no Brasil (na era FHC havia um ministro de Minas e Energia que não sabia o que era KWh), mas misturar militância com ciência me dá asco. Essa pessoazinha (sem querer fazer trocadilho) há não muito tempo também viera com a sugestão de meter o criacionismo na pauta dos estudos de ciência no Brasil. De maluco, tô fora.

Dirigindo para o trabalho nesta sexta de manhã ouço no rádio que “observadores internacionais comemoram o sucesso provisório das eleições no Afeganistão, com a morte de apenas vinte e seis pessoas”. Não tô brincando.

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Saturday, July 04, 2009

Voltando (pelo menos em julho) – Tomando uns vinhos de madrugada 3

Estou de volta e, mesmo sem conseguir dedilhar o teclado, garanto que coisa mais agradáveis serão aqui relatadas.
Em 2006, quando decidira ficar junto à família nas sextas e sábados que entremeiam a passiva existência do homem-formiga (até meia-hora atrás apresentaria com todo o louvor de onde veio essa citação básica e óbvia, mas nas mnemônicas flutuações de grupos de neurônios alcoolicamente desgarrados, tal tarefa torna-se infrutífera), e tal decisão basicamente me obrigava a ficar em casa (ainda não havia esmiuçado as nuances que toda promessa esconde). Tal obrigação relacionava-se única e exclusivamente à questão de agregação familiar, nunca a alguma preocupação em relação à submissão da prole a situações não desejadas. Pois bem, dentro desta ambientação familiar passada, ocorrida há algum tempo, tempo este me sobrava para, após todos "os sonos virem" (taí outra citação que vagueia pela minha mente e que não faço a menor idéia de onde veio –sei que não tem a ver com aquele quadro de Goya que tem uma coruja ...) algo ser escrito. E continuava acordado sabendo que sábado é sábado, sem a culpa associada à ressaca moral (culpa humana essa ainda não resolvida esotericamente) para ditar algumas linhas durante a madrugada.
Os filhos cresceram, tornaram-se exigentes, às vezes por culpa deles, às vezes por culpa do próprio crescimento (que faz parte da busca do humano mentalmente sadio, pelo menos sendo essa a única coisa na qual acredito – ops! me revelei um humanista).
Seja como for, o tempo me foi roubado (outra citação que não sei daonde veio). Entre levar crianças à escola enquanto o Sol ainda não nascera (Caetano Veloso sempre teve o aval do Pasqual para empregar o mais-que-perfeito jogado de qualquer jeito na frase), comparecer a reuniões com professores e, resumindo delongas chatas, tentar fazer com que pessoas amadas correspondam às suas expectativas, o cansaço me tomou.
O Blog parou. Não que isso faça a menor diferença para você que está lendo. Mas fez para mim. Ou não fez, sei lá. Na verdade talvez faça diferença para o leitor que me conheça. Leio cositas aqui e cositas lá, mas seria muito melhor ler algo de pessoas que conheço. Logo, transponho tal percepção pessoal ao resto dos humanos (tendo plena consciência de que talvez não seja verdade).
E a vida se perdeu entre levantar às 5h30 para levar um filho ao colégio, ir à ginástica (o que faria até esperar a hora de entrar no trabalho ?), "fazer o que tiver que ser feito" (mil nomes foram atribuídos a tal voluntarismo) durante horas e voltar para a casa para TENTAR ajudar em trabalhos de casa (e há jogos de futebol espalhados pela semana inteira, pelo menos para mim, que acompanha a segunda divisão).
E o vinho (segunda garrafa) pesa ...
Diz a lenda que Conan Doyle obteve de um "médico" a ordem de ESCREVER para sanar sua ansiedade.
O que pretendemos (os coloquei no barco) daqui adiante ?
Como sempre, a coisa chata da discussão de filmes, livros, HQs e idéias.
Relendo o que escrevi em minhas últimas colunas "vinho na madrugada" (ou seja, as duas que agüentei) reconheço que a fluência, para um observador externo (ou seja, alguém que não seja eu), é um pouco um tanto que confusa, mas e daí ?
Na verdade era confusa até para mim.
Já leram "O Pêndulo de Foucault" ? Tive que ler uns quatro livros em paralelo para entender as piadinhas e o livro foi BEST-SELLER ! Basicamente o mesmo leitor que eleva "aos mais vendidos" baboseiras de auto-ajuda, ou explicações de como a teoria quântica pode te ajudar no dia-a-dia, fora obrigado a colocar na estante uma maluquice incompreensível sobre sociedades secretas. E ninguém reclamou.
Seja como for, há uma tendência nos quadrinhos em se rabiscar auto-biografias (vide "Persépolis"). Todas são idolatradas na Folha (o único jornal que leio, mais que por preguiça, mesmo sabendo que a capacidade crítica do mesmo não é a das mais afiadas). Mas há melhores e piores ...
Na verdade, os analistas político-econômicos não acertam praticamente nada e continuam desfilando por entre as páginas. Há algum tempo, por exemplo, estávamos na iminência do estouro da bolha do dinheiro fictício investido em "WEB Business" (toda semana tínhamos a pregação de Robert Kurz no "Mais!").
E o problema não se restringe a tal estatística de previsibilidade, mais ainda a falta de potência. Não existe mais um equilíbrio entre os "poderes da República"e a gralhada da imprensa. Acorda-se que tudo será resolvido com a consciência do povo nas próximas eleições, ao mesmo tempo que a propaganda contra a votação nula atinge o limiar da perseguição. Parece piada.
O grande problema da humanidade é não ser invadida por E.T.s.
Discutiremos isso. Discutiremos a essência do Mal, discutiremos Deus e a série de literatura ateísta atual (Dawkins, Hitchens, Onfray, etc ..).
Discutiremos Darwin (modéstia à parte me tornei um especialista no assunto).
Discutiremos Sartre e seu Diabo vagando à guisa de um Bom Deus, ou "The White People" de Arthur Machem, onde se afirma com todas as letras que fazer o Mal é uma arte.
Discutiremos Xadrez ! Por que não ?
Como diria Raulzito: "a formiga trabalha porque não sabe cantar" (ou algo do tipo).
Não que isso tenha alguma relevância.
Me esqueci o que eu queria falar ...

Saturday, February 17, 2007

Olmar, Carnaval e Bukowski


Estou e volta e, mesmo sem conseguir dedilhar o teclado garanto que sou melhor do que tem em volta Na sua frente.
Em 2006, quando decidira ficar junto à família nas sextas e sábados que entremeiam a passiva existência do homem-formiga (até meia-hora atrás apresentaria com todo o louvor de onde veio essa citação básica e óbvia, mas nas mnemônicas flutuações de grupos de neurônios alcoolicamente desgarrados, tal tarefa torna-se infrutífera), e tal decisão basicamente me obrigava a ficar em casa (ainda não havia esmiuçado as nuances que toda promessa esconde). Tal obrigação relacionava-se única e exclusivamente à questão de agregação familiar, nunca a alguma preocupação em relação a submeter a prole a situações não desejadas. Pois bem, dentro desta ambientação familiar passada ocorrrida há algum tempo, tempo me sobrava para, após todos “os sonos virem” (taí outra citação que vagueia pela minha mente e que não faço a menor idéia de onde veio –sei que não tem a ver com aquele quadro de Goya que tem uma coruja ...). Para os outros. Continuava acordado sabendo que sábado é sábado e tempo me sobrava (sem culpa – porra, Jesus não morrera por causa disso : Pelo menos foi o que Santo Agostinho disse ... ah! mas é só a culpa do Pecado Original ...) para ditar algumas linhas durante a madrugada.
Os filhos cresceram, tornaram-se exigentes (cuidado Caco!), às vezes por culpa deles, às vezes por culpa do próprio crescimento (que faz parte da busca do humano mentalmente sadio, pelo menos sendo essa a única coisa na qual acredito – ops! me revelei um humanista).
Seja como for, o tempo me foi roubado (outra citação que não sei daonde veio). Entre levar crianças à escola enquanto o Sol ainda não nascera (Caetano Veloso sempre teve o aval do Pasqual para empregar o mais-que-perfeito jogado de qualquer jeito na frase), reuniões com professores e, resumindo delongas chatas, tentar fazer com que pessoas amadas correspondam às suas expectativas, o cansaço me tomou.
O Blog parou. Não que isso faça a menor diferença para você que está lendo. Mas fez para mim. Ou não fez, sei lá. Na verdade talvez faça diferença para o leitor que me conheça. Leio cositas aqui e cositas lá, mas seria muito melhor ler algo de pessoas que conheço. Logo, transponho tal percepção ao resto dos humanos (tendo plena consciência de que talvez não seja verdade).
E a vida se perdeu entre levantar às 5h30 para levar um filho ao colégio, ir à ginástica (o que faria até esperar a hora de entrar no trabalho ?), “fazer o que tiver que ser feito” (mil nomes foram atribuídos a tal voluntarismo) durante horas e voltar para a casa para TENTAR ajudar em trabalhos de casa (e há jogos de futebol espalhados pela semana inteira, pelo menos para mim, que acompanha a segunda divisão).
E o vinho (segunda garrafa) pesa ...
Mas pretendo continuar.
Diz a lenda que Conan Doyle obteve de um “médico” a ordem de ESCREVER para sanar suas repressões (interessante alguém diagnostivar isso antes de Freud).
O que pretendemos (os coloquei no barco) daqui adiante ?
Tenho (temos) certas idéias.
Discutiremos filmes e livros.
Relendo o que escrevi em minhas últimas colunas “vinho na madrugada” reconheço que a fluência, para um observador externo (ou seja, alguém que não seja eu), é um pouco um tanto que confusa, mas e daí ?
Já leram “O Pêndulo de Foucault” ? Tive que ler uns quatro livros em paralelo para entender as piadinhas e o livro foi BEST-SELLER ! BEST SELLER ! Basicamente o leitor que lera algo próximo (do mesmo nível intelectual) a “O Código Da Vinci” no mês passado (ou algum livro idiota que ensina como se aproximar de Deus – comecei a me entusiasmar – ou algo idioticamente correlato) fora obrigado a colocar na estante uma maluquice incompreensível (e extremamente crítica) sobre sociedades secretas vomitada por Umberto Eco. E ficou por isso mesmo.
Best-Seller é Best-Seller.
Tentarei ser mais racional (porra, reclamaram que ninguém sabe quem é Cristopher Marlowe !).
Seja como for, há uma tendência nos quadrinhos em se rabiscar auto-biografias (vide “Persépolis”). Todas são idolatradas na Folha (o único jornal que leio por preguiça, mesmo sabendo que a famigerada segunda do referido jornal é matida atualmente por debéis-mentais)
Isso é uma coisa para se discutir.
Como Clóvis Rossi e companhia só falam merda há vinte anos; não acertam nada e continuam na eterna segunda página. Como todos os analistas políticos de todos os jornais regurgitam a mesma ladainha e não convencem ninguém (não que há algum imbecil a convencer; voto nulo desde que me deram esse “direito” e ainda tenho (tinha – agora “tenho”; já que resolvi me manifestar) que ouvir discurso descrevendo as “Diretas Já”). O engraçado é que o grande inimigo do ocaso era o Maluf e acabou sendo eleito, mais cedo ou mais tarde.
O grande problema da humanidade é não ser invadida por E.T.s.
Marx, Hegel ,Gramsci para os comunas e Voegelin (descobri com amigos meus que na Filosofia da USP não se ensina o dito cujo) para a única voz dissonante (tá. aquele chato católico do Olavo de Carvalho).
Então o que nós temos. Um zilhão de “estudantes de história” da USP que nunca viram “O Leopardo” de um lado e do outro um maluco que se agarra a uma teoria esóterica de um filósofo no mínimo estranho.
Discutiremos iso. Prometo. Discutiremos a essência do Mal, discutiremos Deus e o o ateísmo (Dawkins, Hitchens, Onfray, etc ..). E, obviamente, Mann (Nietzsche), Voegelin (“Hitler e os Alemães” é um livro maravilhoso).
Discutiremos Darwin (modéstia à parte me tornei um especialista no assunto).
Discutiremos Sartre e seu Diabo vagando à guisa de um Bom Deus, ou “The White People” de Arthur Machem (ninguém conhece esse livro, que li num churrasco – é sério), onde se afirma com todas as letras que fazer o Mal é uma arte.
Discutiremos Xadrez!
Como diria Raulzito: “a formiga trabalha porque não sabe cantar” (ou algo do tipo).
Não que isso tenha alguma relevância.

TRECHOS DE PURA LITERATURA 4 – “As Brasas” (Sándor Márai)


“Quarenta e um anos, disse afinal com voz enrouquecida. E quarenta e três dias. Foi esse o tempo que passou”.
Esta é carga emocional guardada (e aguardando por se libertar num solilóquio existencial que cobre setenta páginas) pelo protagonista mor do livro, um militar húngaro envolto num triângulo amoroso que utilizará como substrato ao desbravamentode uma busca pelo sentido de alguma certeza na vida (dentro de minha limitada compreensão).
Sim, a estória se passa na Hungria. Afirmo displicentemente isso porque, curiosamente, desde que citaram (Caco) Márai em algum comentário perdido há meses, dois ou três amigos teceram comentários sobre o autor (um deles meu irmão, que lê atualmente – ou já acabou, sei lá - a versão do autor sobre Canudos). Seja como for, há três meses nem sabia que o dito cujo existia, hoje me garantem que “suas histórias fora da Europa não têm nada a ver”.
No presente livro em questão esbanja conhecimentos acerca da geografia e política da região. A Guerra (a Grande Primeira) se passa rapidamente (imagino que propositadamente dentro de minha - limitada, lembrem-se – interpretação), mas sempre há a menção ao fato (inexplicável) de que o Império Austro-Húngaro tem um Imperador Austríaco e um Rei Húngaro. Intuo que seja alguma piadinha interna.
Não se pode recriminar a lembrança de que a guerra começou quando um sérvio assassinou o “herdeiro” do Império, que na verdade era um primo do irmão do tio de não sei quem, segundo as regras malucas locais. E ficou por isso mesmo. Até que “Os Sedentos por Sangue”, amigos dos “Essa Europa está uma zona, vamos organizá-la” chegaram e disseram “vai ficar por isso mesmo ?”. E foi-se a carta exigindo atitudes da Sérvia e a porrada comeu ...
Mas isso não é comentado no livro. Tais eventos se inserem num contexto insignificante diante da busca frenética pelo sentido de uma vida em particular. Críticas (uma acompanha as páginas finais de minha edição) afirmam que se trata de uma “metáfora acerca da solidão” – Márai se suicidou - ou valorizam demais o pretexto no qual se baseia a trama. Ajudam-no nesta busca personagens que são apenas caricaturamente descritos (e aqui vou entrar em controvérsia de novo), como sua ama de criação.
Página 12 de minha edição – quarta reimpressão:
“Amamentou o general e o criou, e depois passaram setenta e cinco anos”.
E, lembrando que o objetivo é revivenciar trechos (pelo menos tal palavra faz parte do título da coluna) para que possamos nos regozijar em alegrias não abertas ao homem comum (algum dia chegarenos em Swendenborg) seguem breves relatos.
página 24, sobre o castelo:
“As maçanetas das portas conservavam o tremor das mãos, a emoção do instante em que hesitaram de completar o gesto”.
O que me lembra (não pude resistir) Shirley Jackson na introdução do clássico dos clássicos em matéria de “casa soturnas”:
“Nenhum organismo vivo pode existir com sanidade por longo tempo em condições de realidade absoluta; até as cotovias e os gafanhotos, pelo que alguns dizem, sonham. A Casa da Colina nada sã, erguia-se solitária em frente de suas colinas, agasalhando a escuridão em suas entranhas; existia há oitenta anos e provavelmente existiria por mais oitenta. Por dentro, as paredes continuavam eretas, os tijolos aderiam precisamente a seus vizinhos, os soalhos eram firmes e as portas se mantinham sensatamente fechadas; o silêncio cobria solidamente a madeira e a pedra da Casa da Colina, e o que por lá andasse, andava sozinho.”
Fuço em minha coleção de “Scientific American Brasil” estrategicamente organizada pela casa (e aqui o advérbio se refere ao modo como espalho as revistas em gavetas, prateleiras e garagem de modo a qualificá-las em “para ler depois”, “para ler agora”, “para ler depois daquelas da categoria ‘para ler agora’ ” e etc.) e encontro na edição de junho de 2005 um artigo interessante intitulado “A Origem de Nosso Entendimento”.
Um professor de zoologia e neurobiologia da Universidade de Munique descreve os mecanismos cerebrais que diferenciam os primatas dos demais mamíferos.
Basicamente ele divide o fluxo de informação que parte do controle cerebral para os músculos (finais) hierarquicamente em córtex motor (há menção a uma “área pré-motora”), mielencéfalo (“centro do movimento”) e finalmente a medula espinhal com suas redes neuronais. O ser humano e os primatas possuem uma estrutura denominada no artigo de “via piramidal” (e imagino na literatura sobre o assunto) que constitui uma ligação direta do maior centro hierárquico do cérebro aos neurônios que controlam a musculatura das mãos e dedos e (e aqui reside a base da conjectura do artigo) à musculatura da face.
Humanos e primatas controlam cada dedo da mão o que não acontece com nenhum outro mamífero.
Nos humanos há uma região cerebral denominada “Área de Broca” (que tem a sua contraparte na região “F5” dos símios) que é a responsavel (junto, obviamente, com outros centros “complementares” – quem já leu Oliver Sacks sabe das particularidades de consequências bizarras relacionadas a lesões nos mesmos) pelo controle da fala E das mãos (neste ponto há menção aos interessantes “neurônios-espelhos”, assunto de revista mais recente, mas aí já extrapolo o tema). Bem, para quê tudo isso ?
Basicamente a idéia é de que o ser humano se sobressaiu às demais espécies através do aumento conjunto da capacidade de controlar a musculatura facial (fala) e manual. As duas estão intimamente relacionadas. Ou seja, um macaco não fala E não toca piano ...
Márai teoriza ligeiramente sobre o assunto na melhor passagem do livro (que nada tem a ver com a estória ocorrendo, o que me permite citar livremente o texto, sem periclitar ao longo do terrreno das surpresas estragadas).
Página 98 de minha edição:
(...) trouxeram um cordeiro branco, e o dono da casa pegou o facão e o degolou, com um gesto que nunca mais esquecerei .... É impossível aprendê-lo, pois é um gesto oriental que data de uma época em que o ato de matar ainda possuía um significado simbólico, religioso, ligado a algo essencial: a vítima. Foi assim que Abraão levantou a faca sobre Isaac, quando resolveu realizar o sacrifício; com esse gesto, na Antigüidade se imolavam os animais diante do altar, ao ídolo, ao simulacro da divindade; com o mesmo gesto foi decapitado São João Batista. No Oriente ele sobrevive secretamente nas mãos de cada homem. (...) Segundo os antropólogos, o homem nasceu quando adquiriu a faculdade de opor o polegar aos outros dedos, ou seja, no instante em que conseguiu empunhar uma arma, um instrumento de trabalho. (...) Compreendemos assim que no Oriente as pessoas ainda conhecem o significado sagrado e simbólico do ato de matar, e inclusive seu significado erótico oculto. Pois todos sorriam e naqueles nobres rostos morenos viam-se expressões de júbiloe olhares extasiados, como se o ato de matar fosse algo exaltante e salutar, tal como um abraço. (...) Nós também assassinamos, mas de maneira mais complicada, segundo as normas prescritas ou autorizadas pela lei. Matamos em defesade ideias sublimes e de bens humanos preciosos, matamos para proteger as regras da convivência humana. Nem poderíamos agir de outra forma. Somos cristãos, adeptos da civilização ocidental, somos levados a nos sentir culpados. Até os dias de hoje nossa história está marcada por uma longa série de extermínios e, no entanto, ao falarmos de um assassinato, mantemos os olhos baixos, o tom de piedosa recriminação .... .”
Se a resposta (“respostas literalmente na estória) que nosso protagonista procura foi encontrada, ou melhor, elucidada, cabe ao leitor julgar.
Página 150:
“Finalmente, você percebe que um corpo é apenas um corpo e que os homens, pouco importa o que façam, são criaturas mortais”.

Saturday, January 06, 2007

RESENHA (QUADRINHOS) 3 - NOSTALGIA 1 - “LUCIFER”


O personagem “Lucifer” cavou sua própria revista a partir de sua aparição inicial nos primeiros números do clássico “Sandman” (opa ! Neil Gaiman ! ). Como o personagem principal era o Rei dos Sonhos, estreou sob o estigma do “forte inimigo”. E tal contenda com Morpheus deixou seqüelas, uma vez que o personagem ganha força número após número (entrando logo de cara numa disputa com Deus Onipotente) numa trama que enloquece o leitor desavisado, incapaz de entender como um “Perpétuo” pode impor tanto respeito ao Maior dos Manipuladores. Bem, seja como for, o objetivo destas resenhas não é exatamente tecer críticas à obra em si (existem zilhões de site que o fazem) e sim capturar passagens interessantes. Se bem que minhas últimas resenhas desmentem o que acabo de escrever ... Entretanto, esquivo-me desta inconsistência lógica ao colocar em análise o vocábulo “objetivo”. Uma meta pode ou não se traduzir em realidade.
Duvido que alguma crítica/resenha clássica, “jornalística”, por assim adjetivar desdenhosamente, pautada por algum manual de redação interno, não iria se preocupar em citar as origens latina do vocábulo ou se embrenhar em comparações esdrúxulas envolvendo a Bíblia, o Livro de Enoque e outras esquisitices literárias. Como se a história não fosse a mesma. A história é sempre a mesma. Difere-se apenas no modo de contá-la. E não me furto ao vinho.
Neste ponto nos é grata a recordação de que uma das melhores revistas, “Hellblazer”, sob o comando de Jamie Delano, criou-se a partir de um John Constantine secundário inserido num roteiro de Alan Moore para “Swamp Thing” (“Monstro do Pântano”).
Voltemos ao tema. “Lucifer” foi presenteado com uma minissérie em três números a cargo de Mike Carey (tendo como “consultor” Neil Gaiman). Isso em 1999 (por isso o “Nostalgia” no título). Após os eventos ocorridos em “Sandman” Lucifer abandona a gerência do Inferno e se concentra em tocar uma boate em Los Angeles (“Lux”).
A boate se localiza em Los Angeles. “Os Anjos”. Entendeu a piadinha ? Rá Rá Rá ...
Acaba virando uma espécie de “ex-presidente”, consultor em assuntos divinos criacionistas. E tal qualidade (característica) é posta a prova quando surge um “problema” no qual Deus não quer se envolver diretamente. Deuses antigos e esquecidos, dos tempos “não-verbais” despertam numa ânsia, carência e inocência culminando num fornecimento irrestrito de desejos à humanidade. Reside por aí a boa idéia da história. Amenadiel, o mensageiro de Deus, comunica a situação a Lucifer:
- “There is a power at work on Earth which is granting wishes” (“Há um Poder realizando desejos vagando pela Terra”).
No que Lucifer responde com ironia e descaso.
Amenadiel então resume a consequência do exposto acima:
- “ (...) They´ll rip each other apart like rats in a sack” (“Os humanos vão se matar uns aos outros como ratos”). O que resume Marlowe e Goethe e tudo que veio depois numa só frase de efeito.
Depois começam as babaquices que envolvem Navajos (Lucifer se apropria de uma descendente da raça para adentrar o Reino do “Não-Verbais”)., temática que abomino.
Não tenho nada contra americanos, numa eventual “retomada psíquica” idolatrar uma “antiga magia da terra” canalizada num arquétipo que se consuma sob a efígide da cultura Navajo e afins. Digo “afins” porque encaixota-se todos os povos ameríndios em apenas um contexto.
Vide “Arquivo X”. Vide Jim Morrison (embora o nome da banda venha de uma referência literária tangível, por assim dizer, mas “The End” sobressai-se como um hino à causa). Burroughs idolatrava o peiote e não o misticismo eventualmente implícito. E peiote tem a ver com Navajo ? Você sabe sem consultar esta bosta chamada Internet ? Percebe aonde foi levado ?
Mais um copinho para fechar ..
Bem, após a minissérie Carey ganhou a revista. 75 números (como “Sandman”). Recebi o último semana passada ...

RESENHA (QUADRINHOS) 2 - “FÁBULAS”



Desta vez a edição chegou a mim pelo simples e direto interesse pelo tema. Antes de começarmos a divagar (e este é um verbo bom) não posso lhes furtar a informação de que estes quadrinhos escolhidos constituem de maneira grosseira aqueles que tenho lido. Sem querer entrar (pelo menos não agora, às duas da manhã) em contendas acerca da nostalgia de certas idéias nas quais me imbuio, em algum dia chegaremos em Alan Moore, Neil Gaiman, Grant Morrison, Peter Milligan e etc.
“Fábulas” de Bill Willingham (ilustrado pelo filipino Lan Medina) lanceia o imaginário dos contos de fadas transportando-o para Nova York. Estão todos lá, escondidos num recanto mágico que interage com o mundo do humanos; nosso mundo, aparentemente o último refúgio interdimensional de um “mal” não definido. Um prefeito “dos encantados” submisso a uma amarga, recalcada e divorciada Branca de Neve (que faz parte do “governo paralelo”) é confrontado com um pretenso assassinato interno. O encargo da investigação é delegado ao Lobo Mau, que assumiu uma forma humana (na verdade uma semelhança muito e descaradamente próxima ao bom e evelho “Main Man” de Alan Grant). E seguem piadinhas numa historiazinha simples que agrada, embora sempre vicejando abaixo de nuvens de pedantismo. Na verdade, a percepção destas nuvens de arrogância, para este caso específico bem podem ser resultante de uma reação mal-humorada e humana aos devaneios elogiosos que figuram em qualquer coisa impressa hoje em dia (pelo menos quem fantasia não é o próprio autor, como assinalado em resenha anterior). Não há um livro impresso que se esquive de se utilizar da informação que os “New York Fuckers” avaliaram o trabalho como “um legado para o século vindouro”.
Lembro-me de “Shrek” e concluo que nenhum ser humano normal (escritor ou não) poderia incluir “Fábulas” num mundo de originalidade ímpar (porque há os mundos de originalidade não-ímpar). Sempre duvide de alguma crítica que se fia na originalidade (ímpar ou não) como substrato. Tudo já foi dito. Triste somos nós que caminhamos na sombra dos primeiros.
Sob o tema há uma curiosa observação de Harold Bloom em “A Angústia da Influência – Uma Teoria da Poesia”. Segundo o mesmo há apenas um autor criativo (na concepção mais deificada da palavra): Shakespeare. Discutindo a questão, expõe o autor dos quatro volumes de “Contos e Poemas para Crianças extremamente Inteligentes de todas as Idades” (o qual farei questão de comentar em breve):
Shakespeare está tão fora da categoria de autores eminentes quanto da multidão. É incocebivelmente sábio: os outros, concebivelmente. O bom leitor pode, por assim dizer, aninhar-se no cerébro de Platão, e dali pensar; mas não no de Shakespeare. Ainda estamos no relento. No dom da execução, na criação, Shakespeare é único. Ninguém pode imaginá-lo melhor. Ele foi o que mais longe foi na sutileza compatível com um eu individual – o mais sutil dos autores, e quase além da possibilidade de autoria. (...) Dêem a um homem de talento uma história para contar, que sua parcialidade acabará por aparecer. (...) Shakespeare, porém, não tem parcialidade, nem tópico importuno; tudo é devidamente distribuído (... etc.).
Basicamente o que Bloom quer nos dizer que se você quer buscar a Voz de Deus não a procure na Bíblia ou no Corão.
O “Adversário” em “Fábulas” se parece demais com os homens que invadem um Sonho em “House of the Dolls” de “Sandman” (chegaremos lá). Remanescente, Lobo Mau e suas ações se assemelham deveras com um episódio interessante dos mistérios que permeiam o imaginário.
De 1764 a 1767 alguma coisa parecida com um Lobo atacou a província de Gévaudan, matando (dependendo de relatos) dezenas de pessoas. Sobre o que seria a Besta, hipóteses borbulham no caldeirão imaginário incluindo desde Hienas treinadas a híbridos “proibidos” e feras mezosóicas. Há filmes. “A Companhia dos Lobos” é fácil de se achar.
Não se trata de um Pé-Grande ou Monstro do Lago Ness. Seja o que for, matou perto de 70 pessoas em três anos ....

Friday, December 22, 2006

TRADUÇÃO 1b - NATIMORTO



Segue a segunda e última parte do conto “Natimorto”. Se me animar coloco uma tradução maior (dividida em mais partes).

“O quê ?”, disse Hugh após um breve momento. Irmãozinho não havia trocado de posição desde a mumificação.
“Irmão”
Alguns galhos batiam na janela, jogados pelo vento de encontro à casa. Embaixo, Hugh ouviu sua mãe gritar alguma coisa. Talvez estivesse brava com o vento, talvez com a televisão.
“Irmão.”
“O quê ”, respondeu novamente Hugh, sem impaciência.
“Beije-me.”
Hugh ajoelhou-se e aproximou-se da cama. Fitava agora a face de Irmãozinho de perto. A carne morta em volta das órbitas esticou-se até fechar o buraco dos olhos, o nariz era apenas uma pequena elevação, e a boca um corte estreito que jamais havia sorrido.
A voz penetrou-lhe a mente, suas palavras sibilando como um chicote: “Beije-me.”
Hugh passou o cobertor em volta de Irmãozinho, apertando-o com um cinto. Colocou-o de volta em seu esconderijo, atrás das caixas de sapato de uma prateleira de seu armário. Aquela noite seus sonhos foram povoados pela presença de Irmãozinho. Ao despertar encontrou-o aninhado em cima de seu peito, livre das cobertas. Assustado, arremessou-o de encontro à parede. O barulho foi como o de galhos secos sendo pisados. Levantou-se e saiu correndo pelo corredor. Após cerca de meia-hora no banheiro, ainda tremendo um pouco, voltou ao seu quarto. Afinal, não poderia deixar sua mãe encontrar Irmãozinho.
O crânio de Irmãozinho estava amassado e um braço pendia solto, ligado ao corpo por um fiapo de pele curtida. Sem tocar em Irmãozinho, Hugh o envolveu com uma camisa. “Eu te amo”, disse-lhe suavemente. Levou-o então escada abaixo para fora da casa.
Estava amanhecendo. Ao final da rua, além das casas, havia uma velha estrada de terra que levava a uma pastagem para cavalos. Hugh seguiu a trilha, ainda fracamente iluminada pela luz do sol nascente, fortemente abraçado a Irmãozinho, que continuava envolto pela camisa. Os pássaros cantavam como se fosse o primeiro dia do mundo. “Eu te amo”, sussurrou-lhe novamente. Deslizou por entre as barras do portão, atravessou uma área cheia de barro e se dirigiu para um grupo de árvores no meio do pasto. Os cavalos estavam todos do outro lado. Observavam, mas não chegavam perto.
As árvores eram carvalhos finos, os galhos entrelaçando-se como se todas estivessem a dar as mãos, madeira escura e úmida coberta, aqui e ali, por musgo verde. Hugh embrenhou-se por entre o conjunto até chegar ao centro. As árvores encontravam-se de tal maneira juntas umas das outras que não era possível um cavalo ali entrar. Localizou uma pequena abertura em um dos carvalhos e lá apoiou Irmãozinho. Se esgueirou de volta ao pasto e, molhado e cansado, fez o caminho de volta.
Em casa foi recebido aos berros por sua mãe: molhara-se logo de manhã, saíra de casa sem avisá-la e acordara muito cedo. Então Hugh percebeu que seu escudo havia sumido, tinha ficado lá fora no pasto, com Irmãozinho. O que ela dizia o estava ferindo novamente.
Aquela noite se espreitou de volta ao pasto e retornou com Irmãozinho debaixo do braço.
“Beije-me”, disse Irmãozinho três noites depois.
Hugh, fortificado por sobreviver incólume a um novo ataque de berros e gritos aquela tarde, beijou a face de Irmãozinho que não estava esmagada.
“Coma-me”, sussurrou Irmãozinho.
Hugh deixou-o então em seu esconderijo por três meses.
No final de janeiro, quando Hugh abriu momentaneamente sua caixa para vê-lo, Irmãozinho repetiu o pedido.
Hugh necessitava da força de Irmãozinho. Sua mãe havia achado um novo homem, um homem com uma mão que doía, com uma cara que lhe incomodava e uma língua cheia de palavras que lhe penetravam por sob a pele, lhe espetando como anzóis.
“Coma-me”, disse-lhe mais uma vez Irmãozinho. “Uma vez dentro de você, ninguém mais poderá machucá-lo. Eu estarei para sempre do teu lado e o protegerei.”

Pela manhã, tremendo e suando, mas fortificado, Hugh desceu as escadas para enfrentar sua mãe e seu novo homem. Por detrás de seus olhos, outros olhos espiavam, apesar das pálpebras fechadas. Suas primeiras palavras naquele dia saíram desconexas e inaudíveis. Mãe e homem novo aproximaram-se curiosos para ouví-lo, então se afastaram, as faces assustadas, e depois disso, tudo mudou.

Saturday, December 16, 2006

TRADUÇÃO 1


Com o intuito único e específico de tentar cativar (adoro esta palavra desde a primeira vez que li “O Pequeno Príncipe”) outrem (também gosto desta palavra, embora sem razão definida) resolvi encaixar uma tradução de um conto pertencente a uma antologia de “contos pertubadores” editados por Thomas F. Monteleone (indivíduo este que já soube quem foi; no presente momento o desconheço – peculiariedades de minha memória efêmera).
Traduzo-o palavra por palavra obedecendo obviamente uma certa cadência. Não interfiro (e a tentação foi muita no primeiro parágrafo).
Trata-se do conto “Stillborn” de Nina Kiriki Hoffman (americana, apesar do nome maluco) pertencente à antologia “Borderlands” (vide foto de minha edição “pocket book” de 92 comida pelas traças). Não é de longe dos melhores, mas tem três páginas .... Vamos lá ...

Natimorto
Hugh o achou na cova rasa cavada atrás da casa (pretensamente por sua mãe). Manteve-o enrolado em algodão acima do registro do aquecimento no sótão, onde o calor e falta de umidade o preservaria, sem apodrecê-lo. Uma vez mumificado, levou-o para seu quarto, onde então poderia observá-lo com a porta trancada, em noites onde sua mãe já tinha ido se deitar. Quando o sacudia, o que restava de seu cerébro chacoalhava dentro do pequeno crânio “como ervilhas dentro de um pote”.
“Irmãozinho”, ele sussurava, fitando sua face afundada.
“Irmãozinho”.
A partir de então, toda vez que ela gritasse e o agredisse, lembraria possuir algo que a conhecera intimamente, algo blasfemo e por ela exorcisado. Poderia fitá-la com aquele conhecimento secreto por detrás do olhar e nada que dissesse o atingiria. Ela berraria o quanto quisesse ... ele apenas sorriria. Às vezes, quando ela o agridia, pensava em como poderia alcançá-la por dentro, onde Irmãozinho costumava viver.
Mas sua mão jamais teria que tocá-la, seus pensamentos já o faziam o suficiente. Com esse conhecimento no fundo de seus olhos ele a encarava um pouco mais, até que a face de sua mãe enchia-se de um vermelho sem vida e, derrotada, voltava-lhe as costas, suas palavras caídas mortas. Outras vezes, displicentemente, ela realmente se apalpava, lá embaixo, como se soubesse que seus pensamentos ali a sondavam.
Irmãozinho falou pela primeira vez numa noite de outubro fria e ventosa. Respingos de chuva alcançavam a janela do quarto onde Hugh dormia, de onde podia-se vislumbrar uma escuridão pretensamente controlada por uma geometria quadricular formal. A lâmpada acesa completava a resistência contrapondo-se contra a escuridão exterior.

OK. Aqui eu mexi um pouco no texto (não o faço mais) mas no original há um desleixo momentâneo pueril: “ ... The window in Hugh´s room was a square of black. Occasional rain spattered it. The goose-neck lamp by the bed cast an image of the room against the night”. O que não se pode perdoar é a sentença “o quarto de Hugh”. Soa muito melhor “o quarto onde Hugh dormia”.

“Irmão”, sussurrou Irmãozinho, apesar de seus pequenos lábios não se moverem.
Hugh colocou então Irmãozinho em cima da cama, dando dois passos para trás antes de olhá-lo novamente. No meio de suas fronhas de algodão Irmãozinho era algo pequeno, seco, amarelado, com minúsculos e esqueléticos dedos sem carne, dois pequenos punhos enrolados e fechados sobre si mesmos como aranhas mortas.

Ficamos por aqui nesta experiência de tradução de “coisas perdidas”. Coloco o resto em duas horas se alguém pedir.

Saturday, November 18, 2006

TRECHOS DE PURA LITERATURA 3

O trecho a seguir insere-se em três contextos. Primeiro que acabo de escrever a coluna (vocábulo pretensioso ?) “vinho de madrugada” (o que basicamente e a grosso modo significa que ainda é madrugada e ainda estou tomando vinho). Segundo, que possuo jornais antigos (vide coluna anterior) e este trecho do caderno Mais! escancarou-se à minha frente sem querer. Terceiro, que ao voltar durante a semana do trabalho ouvindo um programa esportivo-cômico na Bandeirantes (esquecera a caixa de CDs) um ouvinte me vem com a idiotice de que (meu linguajar) “enquanto Romário miguela gols em amistosos insossos, Pelé obteve os mil gols jogando bola”. Prometi a Deus (letra maiúscula ? Fazer o quê ? “lula” se escreve “Lula”) e ao mundo que não comentaria futebol, mas como diria Platão: “Que Siracusa seja nossa”. Romário no começo do ano jogou oito amistosos e efez oito gols. Ponto. Pelé, antes de fazer o milésimo (num pênalti roubado contra o Vasco) fez uma “excursão” ao Nordeste onde quinze gols num jogo era coisa “dentro do planejado”. Não recrimino Pelé nem o Santos. Deve-se valorizar a idolatria. Dentro de minha humilde existência Romário foi o melhor jogador que vi correr nos gramados (diga-se de passagem artilheiro com quase quarenta anos do Brasileiro de 2005). Nada mais justo que valorizá-lo. E viva Pelé. E foda-se a Bandeirantes e “Na Geral”.
O trecho que vem a seguir tenta (e o emprego deste verbo específico é importante – lembrem-se de Caco e Platão e o Mito da Caverna) descrever o segundo gol do Brasil contra a Holanda na Copa de 1994.
Do músico José Miguel Wisnik:
“ (...) .Ao interceptar a trajetória da bola, o atacante dobra a perna esquerda, como quem vai chutar com ela, mas chuta na verdade com o lado de fora do pé direito, depois de saltar, numa fração de segundo, sobre essa mesma perna. (...) .Gols como esse são lances de pura precisão poética, intraduzíveis no ramerrão da prosa. Numa rigorosa elipse paradoxal, Romário chuta não chutando.”

TOMANDO UM VINHO DE MADRUGADA 2


Copa Real Tempranillo 2003 básico. U$ 12 na Mistral.
Antes de mais nada agradeço a meu amigo Caco pela contribuição à coluna. Até semana passada não sabia quem era Sándor Marai. Nesse meio tempo encomendei “As Brasas” na Siciliano e descubro que o mesmo não apenas se suicidara como era tradutor (ou algo literariamente relevante, não me lembro) de Kafka. Quanto à questão do amor (“ou qualquer outra coisa que valha a pena”, segundo imagino, nosso amigo neurocientista – não sei se faz parte da citação) e a questão da definição de sua existência em função de um referencial (e não do ideal platônico da existência em si), acredito que não. Ama-se a competitividade e não o pretenso objeto de amor (meio piegas isso ? Não sei, levo ao pé da letra o título da coluna e só escrevo sob influência de vinis vinifera ...). Agradeço o apelo de minha amiga “montypythoniana” – e agora definitivamente vascaína – Andréia. Se ela lê, eu escrevo.
Bem, antes de mais nada é de bom grado informar-lhes que possuo, a contragosto de minha cônjugue, uma vasta colução de recortes de jornais (datando desde 1984), não organizados. De vez em quando, a pretexto de jogar alguma coisa fora (o que não faz parte do meu plano secreto de algum dia quando for milionário contratar alguém para arquivar a bagunça) me deparo com alguns arquivos antigos marcados com caneta.
Pois bem, releio numa Folha de abril de 2005 que a empresa Meridian Bioscience Inc. enviou a laboratórios no Brasil amostras da cepa viral H2N2, mais conhecida como Influenza, ou Gripe Espanhola, um troço que causou pânico no mundo no começo do século (o jornal cita uma pandemia de 1957 com 4 milhões de mortos). Comenta‑se que as amostras foram destruídas e blá, blá, blá .. Mas ao final há um comentário sutil: "... os Estados Unidos temem que outros países possam cultivar o vírus e transformá-lo numa arma biológica." Peraí ! Se o negócio é tão perigoso assim, por que um Laboratório PARTICULAR americano pode possuí-lo ? Pode-se alegar que a título de pesquisa o Governo permite o manuseio de tais agentes biológicos dentro de um programa de controle e etc.
Se este programa de controle existe não funciona muito bem. Por engano, os caras mandaram esse vírus "Biohazard" (adoro esta palavra) pra DEZOITO PAÍSES ...
Não me lembro direito do enredo dos "Doze Macacos" (aquela musiquinha do Piazola me vem muito mais fácil à mente), mas acho que é por aí ... E vocês devem lembrar que expressões do tipo “acho que é por aí” não devem ser censuradas neste tipo específico de coluna (principalmente quando o “vinho” se torna “vinhos” – pode-se empregar o verbo no singular literariamente). Nem repetir o substantivo “tipo”.
Até “Os Dozes Macacos” Brad Pitt não existia como ator. Vagava no nível “keanureeves” (aliás onde o próprio ainda se encontra – fez “Matrix ? E daí ? Arnoldão fez “Exterminador” e Stallone participou de Melhor Filme com “Rocky”). Depois veio Malkovich, “Snatch” e, obviamente, “Clube da Luta”, não necessariamente nesta ordem.

Friday, November 17, 2006

RESENHA (QUADRINHOS) 1 - “CHOSEN”


Escolho de início a última história em quadrinhos (não uso o termo “gibi” e, me adiantando para eventuais futuras ocasiões, muito menos “mangá”) que acabo de assimilar. Veio até mim através da monotomia de um sábado chuvoso que me colocou a passear pela Paulista (mais especificamente nas redondezas da Mistral). Isso e mais algumas Malzbiers inicialmente sorvidas controladamente numa administração de um pretenso equilíbrio químico corporal, equilíbrio este não apenas desejável como infortunadamente alterado em função de certas liberdades ocorridas no dia anterior no que diz respeito à permissão daquilo que pode ser jogado goela abaixo. E depois descontroladamente.
Seja como for, todos temos mecanismos de controle para refrear desejos. Impulso consumista insere-se nesta última categoria (desejo) e certos agentes (no caso as Malzbiers) enfraquecem tais mecanismos.
Como escreveu William Blake: “Quem refreia o desejo assim o faz porque o seu é fraco o suficiente para ser refreado” (próximo “Grandes Trechos” ?). Quem sou eu para discutir com alguém que costumava conversar com Anjos e Demônios como se fossem o garçom que te serve ?
“Chosen”, escrita por Mark Millar e com arte de Peter Gross, torna-se interessante (apenas ?) pela auto-crítica publicada ao final, onde os autores não economizam elogios a si próprios. Interessante porque lhe faz duvidar que tenha entendido direito o enredo, já que a priori a história é de uma simplicidade básica, se me permitem o pleonasmo.
Agrada, e serve como passatempo (assim, como por exemplo, “Exterminador do Futuro 2”), mas o ego dos autores deveria estar algumas milhagens psicológicas abaixo … Fora a simplificação religiosa grosseira (que não atrapalha a história, somente lhe força à indignação ao percorrer em leitura os comentários ao final, pressupostamente oriundos de autoridades em teologia – os autores).
A comparação do mito cristão com a trilogia de Star Wars não apenas não pode ser considerada original, como já foi extensamente estudada (por exemplo, o “pop” Joseph Campbell). E nesse ponto tem-se aí ainda uma falha bisonha na inversão da direção da influência. Foi Star Wars que “copiou” o mito (ou pelo menos as partes “perenes” do mesmo) e não o mito cristão que pode se assemelhar de certa perspectiva às idéias de George Lucas. Parece óbvio, mas os autores parecem não se dar conta disso ... .
Enfim, “Profecia” em tiras desenhadas.
Em uma noite de caipirinhas de Absolut discuti esta questão com meu consultor e “intelectual em todos os assuntos, menos futebol” Borra (que, obviamente tinha lido os quadrinhos), o qual me garantiu que Millar já “demonstrara em outras obras uma miltância católica, o que o inocentava do pedantismo detectado”. Para mim esse novo dado apenas reforça a armadilha do raciocínio encarcerado no que diz respeito à religião (há algumas linhas interessantes no livro que leio atualmente de Christopher Hitchens – autor novo para mim - e que compartilharei o quanto antes).
Só para se ter uma idéia há o relato mail a mail entre o autor e os editores num joguinho de gato e rato do tipo (resumo os diálogos de cabeça): “Mas, Millar, forneça mais dados sobre o projeto (me intrometendo, odeio essa palavra)”; “Não posso, mas é algo muito bom”; “Mas nosso conselho editorial precisa de uma idéia básica para aprovar ou não”; “É algo que abala crenças religiosas, brinca com o Cristianismo”, e etc. E depois me vem com essa historiazinha meia boca.
As páginas da Mythos Editora cheiram mal (isso não é culpa do Millar).