Um carro, um humano mal-posicionado, muitas formigas e um acidente.
Há algum tempo (após a promessa não cumprida de manter escritos atualizados) uma fratura em minha mão direita (culpa de meu específico posicionamento em relação a uma particular parede de minha casa no exato momento em que o time do Ceará viria a converter um também específico gol que de modo algum me agradou, para dizer o mínimo), minou por completo tal projeto. Nem ainda finalizada minha recuperação, um novo acidente comprometeu irremediavelmente a continuação do compromisso.
Pois bem, sendo assim, ansiando por vossa compreensão, venho através deste informar-lhes de certo acontecimento peculiar que veio a preencher o meu período de férias. Embora vicejando de ocorridos, tal período acabara marcado por um em particular que viria a eclipsar os demais. Posto tal misteriosa introdução, poderia agora me delongar em conhecidas técnicas de manutenção tensional (se é que existe esta última palavra; mesmo que não, imagino que possa se deduzir tal adjetivação - ops! esta última palavra existe ?), mas em prol do desejo de saciedade em alta (pouco alto, diga-se de passagem, o que não ocorreria se realmente tivesse me utilizado das referidas técnicas), finalizo o páragrafo fornecendo a tão esperada informação, e aos menos desavisados é de bom grado informar que o farei de ríspida forma: acabei sendo atropelado pelo meu próprio carro.
Sim, a leitura que fizestes da última expressão, embora talvez confusa face a uma eventual não imediatidade de assimilação cerebral (o que, no mundo de hoje, torna-se um empecilho para o correto fluxo de idéias), está correta.
Na tentativa (infrutífera, diga-se de passagem) de tentar parar meu carro (desgovernado) em sua tresloucada descida por um barranco graminoso, acabei sendo, no sentido metafórico claro (não estamos em “Transformers”), engolido pelo mesmo, e impelido forçosamente (pelas leis da Física vigente neste canto do Universo – depois podemos discutir o que Hume acha disso) a me aninhar em sua parte inferior, convidado (novamente no sentido metafórico) a compartilhar de sua alegre movimentação desvairada pelos gramados de Santo Antônio do Pinhal. Durante tão especial passeio, talvez por um não entendimento meu em relação ao correto posicionamento de minha estrutura corpórea, acabei sendo admoestado pelo veículo condutor (sem condutor) em relação a tal distribuição espacial; este o fazendo com os meios disponíveis para sanar o eterno (e mais que conhecido) problema da troca de informações entre não-humanos e humanos: a saber, uma educadora manobra de sua roda traseira direita por sobre meu quadril e perna esquerda.
Bem, seja como for, não morri. Nem tive direito a uma recapitulação de minha vida (o que seria interessante porque, acreditem ou não, não me lembro de nada antes dos meus 14 anos), nem me converti a nenhum culto (observar que o vocábulo “religião” não foi empregado) e, segundo Helvy, “não aprendi nada e continuo o mesmo chato de sempre”.
Aos que apreciam um relato mais objetivo, julgo interessante acrescentar alguns fatos a mais, bem como a conclusão do mesmo (que os mais atentos puderam constatar ainda não existente).
Uma bem postada árvore impediu-nos (a mim e ao carro) de prolongarmos nosso passeadouro. Preso sob o bom (e pesado) amigo fui retirado após a correta aplicação de um macaco (mecânico) e largado a esmo sobre um formigueiro. Que infelizmente, para mim e para as formigas (julgo), achava-se habitado. O propagado e mais que alardeado trivial conhecimento focado em se garantir a imobilidade do acidentado (no caso, eu), permitiu aos vorazes insetos atacar um alvo imóvel. Fui então obrigado a conclamar meus camaradas (os mesmos que se utilizaram do macaco, lembram ?) à gloriosa tarefa de enxotamento dos pequenos animais, entretidos em desvendar melhores pontos de investida por entre a pelagem de minhas pernas. Tal manifestação de ações ocorreu até a chegada do resgate (Corpo de Bombeiros), cerca de quarenta minutos depois (a polícia já havia se manifestado um pouco antes em sua peculiar maneira de proceder, fruto de uma mistura de incapacidade intelectual, falta de conhecimentos médicos básicos e inaptidão no que diz respeito ao gerenciamento do pequeno poder aos quais se acham delegados), quando então me inquiriram em relação à capacidade de sensação e movimentação de meus membros inferiores, obtendo-se então de minha parte a resposta de que não apenas conseguia os movimentar e sentir, como ipso facto as investidas das formigas incomodavam-me deveras.
Fui então levado de ambulância ao PS de Campos de Jordão, onde jogaram-me numa fria mesa para a retirada de dois quilos de chapas de Raios-X (não quebrei nada milagrosamente, mas esta certeza só viria no dia seguinte com a sucessão dos exames) e depois ao Hospital (de freiras) São Paulo da mesma cidade para o repouso e realização emergencial de ultrassom (já que algum órgão interno poderia ter sido “danificado”). Nove horas depois após tal exame de emergência ter sido efetuado, pode-se então, a priori, considerar minha situação como não tão grave.
Claro, havia uma queimadura de segundo para terceiro grau exposta junto ao meu abdome esquerdo, bem como diversas inchações ao longo da coluna e bacia e uma eventual torção do joelho direito, mas, como dito, nada tão grave.
Fica para um próximo relato a sequência, narrativa de minhas desventuras visando a recuperação. Tudo isso aconteceu na madrugada de 22 para 23 de dezembro de 2009. Desde então um vingativo céu se rebelou contra o mundano, não dando trégua à cidade de São Paulo (creio eu, pelo menos, que aquelas formigas más foram destruídas).
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